Além da mídia social

4 verdades essenciais que aprendi com Joselito Muller

Em seu próprio site, Joselito Muller é descrito como um personagem fictício que retrata notícias do cotidiano, que faz paródias de figuras públicas em situações cômicas:

Além do charme, Joselito Müller é um competente jornalista, pioneiro no jornalismo de ficção brasileiro. Foi eleito três vezes consecutivas como um dos maiores filhos da puta da América Latina, além de ter sido indicado para o Pulitzer de reportagem mais escrota em 2013 e 2014.

Mesmo com este currículo e com pautas que beiram a surrealidade, com frequência vejo suas postagens compartilhada em minha rede, acompanhadas de revolta, indignação e engajamento politicamente correto. No princípio, tais compartilhamentos me provocavam risos – é brincadeira, né? Como alguém pode achar isso verdade? -, mas depois, comecei a me incomodar:

  1. As pessoas estão fazendo piada e eu não tenho senso de humor ou,
  2. É brincadeira, né? Como alguém pode achar isso verdade?

crime_hediondo

Conversei com alguns responsáveis pelos compartilhamentos e recebi, basicamente três tipos de resposta:

  1. Eu li o título e compartilhei, não li a matéria.
  2. Eu já vi outras coisas do Joselito, não sabia que não era verdade.
  3. Eu li a matéria e achei que fosse verdade.

Se identificou com algumas respostas?

Então compartilho algumas verdades que aprendi com esta pesquisa e com o próprio Joselito Muller:

1. Esqueça a Razão, a Fé move as redes sociais (e o mundo)

Reflita bem. Quantas vezes você compartilhou algo sem ler, interpretando o título, ou acreditando que quem compartilhou leu antes ? Quantas vezes em casa, ou no trabalho, você propagou algo que “ouviu” sem ter certeza da verdade (tipo: fofoca)?

Isto é um ato de fé (quando você acredita que é verdade. Do contrário, você é um sacana mesmo)

Fé é a convicção de que algo seja verdade sem a provas, baseado apenas na total confiança por parte de quem acredita. Ao contrário da Razão, que é a capacidade intelectual para pensar e exprimir ideias, por meio da Razão organizamos e compreendemos a realidade.

suzane

Quantos atos de compartilhamento com fé você realizou hoje? Quantas delas eram estilo “Joselito”, isenta de verdade?

2. Alguma coisa está fora da ordem

Eu tinha uma grande tendência a julgar as pessoas que acreditam e compartilham como verdades, conteúdos de site como o Joselito, Sensacionalista e outros tantos que aparecem diariamente.

Para mim, indignar-se e propagar a indignação “politicamente correta” nestes casos, era como assinar um atestado de desligamento do mundo real ou falta de senso crítico.

Até que um dia, manipulada pelas artimanhas do destino (ou pelo algorítimo do Facebook) fui forçada a rever minha opinião.

Li a notícia, compartilhada com indignação por uma amiga pesquisadora da área de comunicação, sobre um deputado do PSDB que propôs uma lei que obriga a entrega mais rápida de pizza e sanduíche em Goiás.

Como Camila “caiu” nessa? Camila é de Goiânia e Marcos, seu marido é um analista político. Como acreditou? Perguntei para Camila.

Mas a pergunta estava errada. Não era “como” e sim “por quê”.

E a resposta era simples: Porque a notícia era verdade (apurada, inclusive).

Deixei de julgar e entendi o mantra de Joselito: “Nada neste site é verdade, mas poderia ser”.

Sendo assim, decidi apurar por mim mesma, cada notícia que, porventura, eu queira acreditar.

goiania

3. Não confie na fonte, analise, seja criterioso.

Sobra rapidez, falta veracidade.

Com a velocidade do mundo digital e a necessidade dos veículos de informação estarem à frente de seus concorrentes muitos deles esquecem uma lição básica de jornalismo: o compromisso com a apuração da verdade.

Crie um boato, publique em um site, compartilhe em rede social, acrescente um monte de gente que não lê e (não) jornalistas ávidos por qualquer notinha. Pronto!

Esta foi a recente fórmula que levou o ator Selton Mello ao Game of Thrones.

Felipe Venetiglio usou o serviço Shrturl, que permite a alteração do conteúdo de uma página verdadeira, gerando uma réplica idêntica. Atento ao fato de que nem sempre as pessoas sabem o que compartilham, aproveitou-se do frenesi em torno da série da HBO, e cuidou para não plantar uma notícia absurda demais, ainda que extremamente suculenta: Selton Mello em Game of Thrones.

Esta foi uma boataria desvendada pelo seu autor. Quantas não são?

4. Cuidado você pode se tornar um criminoso

Se você se identificou com alguma resposta da pesquisa acima (“Eu li o título e compartilhei, não li a matéria”. “Eu já vi outras coisas do Joselito, não sabia que não era verdade”. “Eu li a matéria e achei que fosse verdade”.), cuidado! De vítima da informação, você pode tornar-se um criminoso.

Observando as redes sociais, com frequência encontro fotos de “procurados”, sequestradores de crianças, torturadores de animais, estupradores e outros crimes.

Compartilhar indiscriminadamente tais informações, sem checar sua veracidade e fonte, pode gerar processos por calúnia, difamação e injúria. Em alguns casos, o resultado destes compartilhamentos provocam mudanças drásticas na vida de pessoas inocentes.

Antes mesmo da democratização da internet, o caso da Escola Base é um exemplo do que hoje ocorre diariamante nas redes sociais. A escola foi fechada em 1994 e na época seus proprietários e um casal de funcionários foram injustamente acusados pela imprensa por abuso sexual contra alguns alunos de quatro anos. A imprensa transformou o fato no tipo de notícia que atrai patrocinadores, expôs a vida dos acusados, envolveu em uma história chocante pais e telespectadores.

O caso foi arquivado por falta de provas. Onze veículos de imprensa foram processados por abuso.

Citei um caso do passado, mas não precisamos ir tão longe para encontrar vítimas. Ano passado, uma mulher foi espancada e morta no Guarujá, depois que sua foto circulou em uma rede social, vinculando-a à sequestro de crianças e rituais de magia negra.

E, se você acha que apagar um mentira que escreveu ou compartilhou resolve, saiba que não.

boataria

Maíra Moraes

Maíra Moraes

Flipboard

Doutoranda em Comunicação e Sociedade na Universidade de Brasília (UnB), pesquisa as relações de poder implicadas no processo de produção de notícias e como as realidades são construídas por meio de narrativas e práticas dominantes. É gerente de projetos certificada PMP®, especializando-se na implementação de metodologias híbridas (presencial e a distância) de educação em redes públicas estaduais e municipais.

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