Além da mídia social

Um estudo sobre a compra de likes

O assunto é velho? É. Mas como nunca vi ninguém publicar o lado de dentro da compra de likes no Facebook, resolvi fazer um artigo detalhado, para que todos possam entender o quão ruim é a ideia de comprar likes e os malefícios que ela faz ao engajamento de uma fanpage.

Tomei a decisão também após ver na página do Cinépolis Brasil, uma publicação recente comprobatória sobre a prática. Veja o print (pode ser que apaguem o post após a publicação deste artigo):

Cinépolis trapaceando

Uepa! Cinépolis pego no pulo ao usar ferramenta para ganhar likes.

Na publicação acima é possível identificar que a origem trata-se de uma ferramenta chamada “Sociota.net”, e o conteúdo nada mais é do que uma pontuação na mesma.

Como se já não fosse vergonha anunciada exibir o fraco engajamento da fanpage de uma das maiores redes de cinema, o administrador da página também é descuidado o suficiente para sequer esconder os rastros da sua mágica que uso para fazer o número de likes dobrar.

Cinépolis: Ferramenta entrega: mais de 500 mil fãs fabricados

Cinépolis: ferramenta entrega mais de 500 mil fãs fabricados

Entrando na tal ferramenta você não irá perceber do que se trata imediatamente, pois os serviços oferecidos mais se assemelham a uma ferramenta de controle e gestão de conteúdo, o que parece bem interessante. Veja abaixo:

Sociota.net

Sociota.net

É ao adentrar nos serviços que você se depara com a troca de likes. Uma prática muito antiga, que vem desde o início do Twitter.

Like exchange? É isso mesmo, produção?

Like exchange? É isso mesmo, produção?

Como funciona o esquema de troca de likes?

Para quem não conhece o esquema cabe uma explicação rápida.

Você quer ser como o Roberto Carlos e ter um milhão de amigos — acho que só quem passou dos trinta vai entender essa piada —, entra em uma ferramenta e dá a ela o poder de seguir pessoas em seu nome.

Outras pessoas também tiveram a mesma vontade e também entregaram seus perfis. A ferramenta faz o trabalho mais idiota possível: faz com que os perfis passem a se seguir. Com isso, ambos ganham seguidores. E a cada gênio que tem a mesma ideia, e entra na ferramenta, mais seguidores se somam.

Claro que há uma forma de só ganhar seguidores e não precisar seguir ninguém: pagando! Você desembolsa uma quantia e os perfis que entraram na ferramenta de forma gratuita, passam a seguir o seu perfil. Muitos dos chamados “influenciadores” da web fizeram isso.

Facebook: a eficiência da compra de fãs, ou falta dela, escancarada

Entendo que ter muitos seguidores ou fãs seja tentador, principalmente em um mundo tão efêmero quanto o digital, mas é uma ideia realmente muito idiota e vou explicar com mais detalhes.

O objetivo final de uma página no Facebook, é atingir o maior número de pessoas possível, por meio da disseminação do conteúdo que nela é publicado, ou seja, qualquer marca ou personalidade quer a mesma coisa: ser visto.

Como há muito conteúdo sendo publicado, o Facebook precisa escolher quais os conteúdos são mais interessantes, e, à partir daí, exibir nas linhas do tempo das pessoas.

A escolha é feita de acordo com o “engajamento” de cada publicação. Engajamento pode ser várias coisas, desde um clique para ler mais, um like, um comentário deixado e até o tempo em que a publicação leva para ser lida.

Pois bem, em uma página sadia, em que todos os fãs são legítimos, o engajamento é muito melhor do que uma que recebeu “incentivos”.

Vamos fazer uma conta sem exatidão, mas para mostrar como essa diferença aparece, ok?

Universo 1 – Página com 10 mil fãs normal.

Suponha que uma página tenha 10 mil fãs legítimos. Para medir se o conteúdo publicado é bom, o Facebook, toma a decisão de exibir apenas para um pequeno grupo destes fãs, cerca de 100 (hipoteticamente).

Destes 100 fãs que visualizaram uma publicação, 15 deram like, 5 compartilharam, 5 deixaram comentários.

Na conta do Facebook, a cada 100 exibições, 25 interações. Logo, o conteúdo é interessante e merece ser exibido para os outros fãs da página.

Universo 2 – Página com 100 mil fãs, 90 mil “adquiridos”.

A mesma publicação do outro exemplo é feita. Novamente o Facebook exibirá para um grupo de 100 fãs. Cabe lembrar agora é que a cada 100 fãs, apenas 10 tem possibilidade de interagir com o conteúdo, o restante é bem provável que nem português entendam.

Obviamente, por melhor que sejam os resultados, o máximo de interações que o conteúdo teria não seria superior a 10. Menos da metade, na melhor das hipóteses, do exemplo anterior. O Facebook, diante desse resultado, decidirá que não vale a pena exibir o conteúdo, pois o mesmo não é interessante.

Mas, qual é o problema com isso?

Se você ainda não entendeu qual o problema com isso, então a situação é bem pior do que eu imaginava.

O problema, caro mancebo, é o mesmo de quem abusa dos anabolizantes, a página sofrerá as consequências pelo resto de sua existência.

Não há uma forma de remover os fãs comprados. Sendo assim, toda vez que você quiser que seu conteúdo seja exibido, só será possível mediante a muito desembolso financeiro. Entendeu agora?

Ao inflar os likes você praticamente abre mão da audiência orgânica, que já não era grande coisa, mas era melhor que nada.

Há páginas que eu administro que com 50 mil fãs, cujas publicações, chegam a mais de 60% de alcance orgânico. Outras, em que recebi já infladas, não passam de 2%.

Duvida? Toma mais print então:

Comparação de engajamento entre um post publicado no dia 21 de novembro e um publicado há 9 meses.

A página dobrou de tamanho, mas o engajamento continuou o mesmo

A página dobrou de tamanho, mas o engajamento continuou o mesmo

Os bastidores de uma página brasileira, com 110 mil fãs inflados.

Que legal, 132 mil fãs! #sqn

Que legal, 132 mil fãs! #sqn

E olha só: de 132 mil fãs, nem 20% são do Brasil

E olha só: de 132 mil fãs, nem 20% são do Brasil

Agora chega, não é? Assim como o He-man fazia, deixarei a mensagem do dia: não compre fãs, eles não ajudam no engajamento, sujam a sua página e geralmente nem português falam.

Marcelo Vitorino

Marcelo Vitorino

Flipboard

Professor na ESPM e consultor de comunicação e marketing digital, Marcelo Vitorino reúne experiência no marketing corporativo, eleitoral, institucional e político

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