Além da mídia social

Quanto mais usamos o teclado, menos aprendemos

Em 2011, participei de uma mesa sobre Educação Infantil que discutia a construção de identidade no mundo contemporâneo e uma afirmação me inquietou. “Estamos perdendo uma característica importante na construção da nossa identidade como seres humanos e sociais: a letra cursiva.”

Olhei para minhas anotações escritas com caneta no bloco distribuído pelo evento e ficou claro que eu estava perdendo a prática. A cada 10 palavras, pelo menos 6 só poderiam ser lidas por mim mesma por estarem gravadas na memória, isto é, eram ilegíveis. Ao redor, pessoas que teclavam no tablet pareciam viver o mesmo incômodo.

Estaríamos, todos nós, dissolvendo nossa identidade no momento em que abandonamos a caneta e optamos pelo teclado?

Nossa letra, nossa identidade

No Brasil, o documento referencial da Educação Infantil (quando aprendemos a escrever) afirma que a identidade

“é um conceito do qual faz parte a ideia de distinção, de uma marca de diferença entre as pessoas a começar pelo nome. Segundo todas as características físicas, de modo de agir, de pensar e da história pessoal”.

 

Dentre os fatores de construção da nossa identidade, do nosso diferenciar-se, encontra-se a letra cursiva ou a escrita à mão. É um recurso intimista, cada um com sua letra e seu estilo, personalizando cada espaço por onde passamos o lápis. Olhamos e nos identificamos. Mesmo se for uma cópia de um texto ou um ditado, a linha escrita foi resultado de um esforço único, com características individuais de seu executor.

Recentemente li sobre um projeto a respeito da grafia do nome e a assinatura na construção de identidade das pessoas cegas. E lá está ela, a escrita à mão como ponto central. Por meio de ações junto às pessoas cegas, os formadores buscam desenvolver a competência da assinatura cursiva. Mesmo cegas, o ato de escrever tem como efeito:

Estimular e promover a emancipação, autonomia e o sentido de privacidade

Possibilitar o fortalecimento da confiança em si mesmo e autoestima

Respeitar a individualidade e exercer a capacidade de decisão

 

A questão do abandono da escrita à mão, tem levantado outras questões e tornou-se tema central de muitas pesquisas sobre aprendizagem.

 

Aprendemos menos teclando?

Sim.

Este é o resultado de estudos publicados recentemente. E não é pelo fato de que digitando em um tablet teríamos facilidade de perder o foco, acessando outros conteúdos, mas sim pela velocidade de escrita.

Segundo o artigo The Pen Is Mightier Than the Keyboard (A caneta é mais poderosa do que o teclado), se um digitador hábil está sentado em uma sala de aula, ele será capaz de digitar cada palavra proferida pelo professor, mas este processo não requer qualquer pensamento crítico, seu cérebro não se envolve com o conteúdo. E, pesquisas sobre aprendizagem indicam que, se nós não sinalizarmos ao nosso cérebro que este tipo de informação é importante, ela será descartada. Uma questão de eficiência.

Ao contrário, quando nos envolvemos com a escrita, não seremos capazes de escrever cada palavra que o orador diz. Em vez disso, temos que criar cotações representativas, resumir conceitos, e fazer perguntas sobre o que não entendemos.

O artigo Why writing by hands help you learn destaca que isso exige mais esforço do que simplesmente digitar cada palavra fora – e o esforço é o que ajuda a cimentar o material em sua memória. Quanto mais esforço que colocou em entender alguma coisa, o sinal mais forte que você está dando a seu cérebro que vale a pena lembrar.

Derivando o estudo, muitos psicólogos educacionais defendem que a caligrafia envolve partes do cérebro negligenciadas durante a digitação, principalmente as partes associadas à memoria. Em outro estudo, discutido no artigo What’s Lost as Handwriting Fades (O que está perdido com o desaparecimento da caligrafia), tem-se que crianças que escrevem à mão livre são mais criativas, comparadas àquelas que utilizam com mais intensidade o teclado.

Quando as crianças tinham elaborado uma carta à mão livre, eles apresentaram maior atividade em três áreas do cérebro que são ativadas em adultos quando eles lêem e escrevem: o giro fusiforme esquerdo, o giro frontal inferior e o córtex parietal posterior.

Por outro lado, em crianças que digitam ou escrevem com letra de forma, a ativação no cérebro foi significativamente mais fraca.

 

E a Finlândia?

A Finlândia, ainda uma referência mundial pela qualidade da educação básica, decidiu que partir do ano letivo de 2016 as escolas não serão mais obrigadas a ensinar seus alunos a escrever com letra de mão. Serão intensificadas as atividades de digitação.

Para a presidente do Conselho Nacional de Educação da Finlândia, Minna Harmanen, “A escrita à mão está ligada ao desenvolvimento da coordenação motora e da memória, mas sabemos que a letra cursiva, muito pessoal de cada pessoa, dificulta a alfabetização”, e complementa, “ter uma digitação fluente é uma habilidade cívica importante, que pode ser associada por todos”.

Eu não consigo prever o impacto dessa decisão em um país como a Finlândia. Defendo e recomendo que toda criança deve alfabetizar-se também em letra cursiva, escrever à mão. Por mais que eu tenha tendências, não posso afirmar que a decisão da Finlândia é um passo para trás, que haverá impactos negativos. No máximo, posso afirmar a formatação de uma nova sociedade, uma sociedade diferente.

Para mim, os argumentos de Minna Harmanen são fracos e frios. Valorizar a digitação, das fontes automáticas e padronizadas, em detrimento de uma letra única,  individual –  cursiva ou não –  é esvaziar processos criativos ligados ao movimento manual, ao artesanato, ao indivíduo, ao afetivo e ao cognitivo.

Um novo homem está se construindo. Só futuro vai nos dizer se o “como” ele escreve mudará também o “porquê” ele escreve.

 

 

 

Maíra Moraes

Maíra Moraes

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Doutoranda em Comunicação e Sociedade na Universidade de Brasília (UnB), pesquisa as relações de poder implicadas no processo de produção de notícias e como as realidades são construídas por meio de narrativas e práticas dominantes. É gerente de projetos certificada PMP®, especializando-se na implementação de metodologias híbridas (presencial e a distância) de educação em redes públicas estaduais e municipais.

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